Naquele ano, a parte do meu corpo que melhor funcionava era o polegar.
Eu tinha ficado tetraplégico num acidente dois anos antes e, embora recuperasse lentamente o movimento dos membros, também estava desempregado, terminando um casamento de cinco anos e sem nenhum familiar num raio de mil quilômetros. O telefone ficava apoiado num suporte improvisado, na altura do peito, porque levantá-lo era negociação demais com um braço que não obedecia.
Então eu rolava o feed. Na cama, de madrugada, quando a cidade e meus pensamentos aquietavam.
Um amigo aparecia num story. Um palco à distância, alguns lasers verdes cruzando o horizonte, o tuntz tuntz da música eletrônica misturado ao som de multidão gritando num festival. Vendo aquilo, eu lembrava que talvez nunca mais voltasse a andar. Outro postava foto no espelho durante treino na academia. Isso me lembrava que não tinha força para levantar a mão acima da cabeça.
Eu continuava rolando, porque era para isso que eu estava ali. Esquecer. Navegava para esquecer as dores e me machucava no processo.
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Como serviços criados para conectar pessoas viraram máquinas de masoquismo identitário, lugares onde navegamos para esquecer quem somos?
Para responder, preciso voltar para antes do meu acidente. Antes, inclusive, das redes sociais.
O mundo mágico da internet
Fiquei fascinado pela internet desde a primeira vez que fiquei online.
Foi através daquela conexão via modem que descobri comunidades inteiras organizadas em torno de assuntos que a minha cidade — pequena, nos confins do Brasil — não tinha como me mostrar. Games. Hobbies. Ou apenas "estamos na mesma cidade compartilhando nossa vida" nos canais do mIRC [1]. Acessava blogs com ideias absurdas de filosofia ou política e passava horas explorando tópicos obscuros na Wikipedia.
Esses lugares eram quase totalmente desvinculados das nossas vidas reais. O que você revelava de si era ocasional e altamente controlado. Dava para ser conhecido num canto minúsculo da internet apenas pelo seu nickname, sem que aquilo afetasse sua vida offline.
Não existia seguidor. Não existia influência. Não existia marca. Esses conceitos ainda não tinham sido instalados em nós. Pelo menos não como conhecemos hoje.
Entram as redes sociais
Em 2004, um garoto de 19 anos deu sua primeira entrevista de TV para explicar um site que tinha feito no dormitório da faculdade. O Facebook, disse Mark Zuckerberg, era um lugar para "encontrar informações interessantes sobre as pessoas". Só isso. Um diretório de gente, feito por um adolescente que — como eu, como talvez você — tinha descoberto que a internet aproximava pessoas que a geografia separava.
O Twitter foi criado para compartilhar pequenas atualizações, com o conceito então novo de que você poderia "seguir" essas atualizações sem que a pessoa precisasse aprovar. O Instagram queria "criar um serviço para permitir que as pessoas compartilhassem sua localização com fotos anexadas".
Repare como as promessas eram pequenas. E sinceras.
E foram cumpridas. As redes sociais democratizaram a voz do povo: ativistas, jornalistas, extremistas e criadores de memes ganharam o poder de influenciar a sociedade, da política à cultura. Também conectaram, de verdade: paixões da adolescência restabelecidas após décadas, irmãs distantes se descobrindo, dentre outras histórias que você certamente já ouviu, ou talvez tenha até vivido.
Essas não eram plataformas de transmissão — não estávamos fazendo isso considerando uma audiência — nem as plataformas foram construídas com a expectativa de que as usaríamos dessa maneira.
A magia do mIRC tinha sobrevivido à mudança de endereço. Por um tempo.
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O conceito de rede social “gratuita” é uma espécie de contrato social-financeiro, assinado num clique que ninguém lê.
Um usuário publica “de graça”, mas reconhece — consciente ou não — que é um usuário e não um cliente. Embora um usuário possa se sentir como um cliente, isso não passa de uma ilusão. A maioria das redes sociais tem um só tipo de cliente: o anunciante.
Em troca, recebemos acesso a um lugar onde falamos sem restrições (dentro das regras da comunidade) e não devemos nada a ninguém. E a rede recebe a única coisa que lhe dá valor: nós. Sem as contribuições dos usuários, não há produto. Sem as contribuições gratuitas dos usuários, a rede não tem valor.
Quanto custa sua atenção?
Esses usuários grátis também esperam níveis de polimento e sofisticação normalmente encontrados em produtos premium. Eles também perdem o interesse facilmente, exigindo inovação constante. Mas o salário dos times que entregam um produto de alta qualidade é caro. Inovação também é cara.
Qual seria a melhor estratégia para rentabilizar esses usuários?
Simples, a atenção das pessoas vem sendo monetizada há séculos através de publicidade. Sejam anúncios em jornais, outdoors, banners, rádio, TV, o foco é altamente rentável.
O pacto
Na carta direcionada aos acionistas em 2012, Mark Zuckerberg declara que o Facebook “nunca foi concebido para ser uma empresa”, mas para “cumprir uma missão social”. A mesma carta também dizia que “cada vez mais pessoas querem usar serviços de empresas que acreditam em algo além de simplesmente maximizar lucros”.
Logo após listar a empresa no mercado de ações, ele menciona em entrevista que estava preocupado em tornar a empresa pública e os incentivos de lucro a curto prazo que o mercado financeiro demanda.
Afora um começo lento, a ação disparou ao longo dos anos, atingindo o então pico de cerca de US$ 384 em setembro de 2021, um crescimento de 10x em nove anos.
Mas 2022 foi brutal, não se imaginava que nosso apetite por telas na pandemia fosse diminuir, sem falar nos temores com os gastos no metaverso e à desaceleração do mercado de anúncios. Em fevereiro de 2022, as ações da Meta contabilizaram, em um único dia, a histórica perda de US$ 232 bilhões em valor de mercado.
No começo de novembro de 2022 — com a ação no pior valor em sete anos (US$ 88) — Zuckerberg fez o que até então era inédito e demitiu 11.000 pessoas de uma vez.
Eu fui uma delas.
A missão social, aquela da carta? Eu e outros dez mil e novecentos e noventa e nove ficamos nos perguntando onde foi parar.
Alguns meses depois, após anunciar o "ano da eficiência" e com 21.000 pessoas a menos no quadro de funcionários, a ação bate o recorde histórico de US$ 796.
Hoje o crescimento — exigido pelo mercado — se chama Inteligência Artificial, e a empresa promete gastar US$600 bilhões em infraestrutura até 2028 [2], pagos, em última instância, pelas horas que passamos rolando. Sua atenção, minha atenção, virou capital semente das máquinas que talvez nem precisem mais de gente conectada a gente.
Competindo com o sono
Em 2017, Reed Hastings, então CEO da Netflix, foi questionado sobre a perspectiva de competição com a Amazon, que à época estava investindo em conteúdo para sua plataforma de streaming. Hastings disse que a Amazon não era um problema. "Pense nisso", disse ele. "Quando você assiste a um programa da Netflix e fica viciado nele, ficará acordado até tarde assistindo.” A Amazon não era sua concorrência, assim como nenhum outro streaming. "Estamos competindo com o sono", disse ele.
Quase ninguém parou para pensar o quão irrealista essa ideia era.
Conforme o crescimento de novos usuários minguava, Facebook, Twitter e depois Instagram adotaram o modelo comumente conhecido como o do TikTok: substituindo feeds de amigos por feeds de influenciadores que você nunca conheceu e provavelmente não gostaria de conhecer.
Nossos amigos ficaram muito ocupados vivendo suas vidas reais para documentá-las, editar e postar.
Por quê? Embora o apetite por receita financeira seja infinito, a nossa atenção não é. Há apenas um número finito de horas por dia para rolar pelos feeds.
O Algo(ritmo).
E aqui a história volta para mim na cama.
O story do amigo dançando não chegou até mim por acaso: foi ranqueado, testado, escolhido por segurar olhares como o meu. A máquina não sabia se eu voltaria a andar. Ela só sabia que eu não desviava o olhar, e isso é a única definição de relevância que existe.
Eu rolava o feed para esquecer a dor, e o feed me servia exatamente a dor que me mantinha rolando.
A saida
Seria fácil terminar aqui, no doom. Mas não vou, porque “a máquina” tem uma fraqueza, e ela está escondida na frase do Hastings.
Competir com o sono é uma confissão: significa que o limite existe. Embora o apetite da máquina seja infinito, o dia não. O corpo, também não. A atenção é a única matéria-prima desse negócio inteiro, e ela é sua. Você controla.
Eu sei o que é perder o controle sobre o próprio corpo e ter que lutar para reconquistá-lo.
Num dos dias em que estava internado no hospital, me levaram de cadeira de rodas até o centro de reabilitação, uma sala cheia de equipamentos de academia e aparelhos de tortura de fisioterapia, de última geração.
Nem deu tempo de observar o que estava acontecendo e alguém da equipe começou a me explicar que iriam me pendurar no teto, alçado através de um traje especial de modo que ficasse com os pés tocando no chão, em pé. Uma cena completamente normal se não fosse pelo fato de que estava dependente de cadeira de rodas para me locomover.
Era extremamente desconfortável, como se estivesse sendo enforcado pela cueca. Mas o pior veio a seguir, que era o exercício de fato: tentar colocar um pé à frente do outro. Andar.
Levantar o joelho era inconcebível, sentia que tinha duas toneladas jogando minha perna para baixo. Como se estivesse na última série de agachamento, já após a falha. Meu pé também não tinha força para levar a ponta e ficava arrastando no chão como se quisesse fazer pose de bailarino.
O único movimento que consegui fazer — com o gentil empurrãozinho da fisioterapeuta — foi arrastar toda a perna para frente, sem dobrar o joelho ou o calcanhar, como se estivesse andando de patins, mas o progresso era de centímetros.
Depois que saí do hospital, Fábio, o fisioterapeuta, vinha me visitar todas as manhãs em casa e me irritava encorajava quase aos gritos, tal qual um coach de crossfit. "Bora Jardel, você consegue, só mais um pouco" enquanto eu tentava em vão levantar a perna da cadeira. Todas as manhãs. Durante seis meses. Até conseguir.
A fisioterapia cobrava tudo e devolvia minha autonomia [3]. O feed me dava a recompensa de graça e me tirava a paz de espírito.
O mesmo polegar que rolava o feed também sabe desligar a tela.
Ver gente em carne e osso, na proporção que o corpo permite. Tocar a grama, nem que seja com a vista. Recusar a dose.
Ninguém é obrigado a ficar no prédio em chamas só porque morou nele quando era bonito.
A magia era real. O canal do mIRC era real, o casal que se reencontrou era real, o garoto de 19 anos explicando seu diretório de pessoas era, ao que tudo indica, sincero. Não deixe que a versão atual te convença de que foi ingenuidade sua.
[1] mIRC era um app de chat popular nos anos 90. Seria o equivalente ao Discord hoje.
[2] Para efeito de comparação, US$ 600 bilhões é quase metade do PIB do Brasil.
[3] Autonomia no sentido de Agency.