Os últimos anos nos mostraram que a inteligência artificial consegue criar textos, imagens, áudio e vídeo que são indistinguíveis dos produzidos pelos humanos.

E tudo gerado pela IA não passa de uma média dos dados que alimentaram o modelo. Do conjunto de dados de seu treinamento.

O que é uma média, se não, mediocridade?

Medíocre (adj.)

de qualidade média, comum; mediano, meão, modesto, pequeno.

Quando você usa o ChatGPT ou ferramentas parecidas, ele consegue fazer coisas bem interessantes, mas, no fundo, tudo o que ele gera é devolver padrões com base nos dados em que foi treinado.

“Um algoritmo de aprendizado de máquina entra num bar. O garçom pergunta: "O que vai querer?" O algoritmo responde: "O que todo mundo está pedindo?" Na cultura algorítmica, a escolha certa é sempre aquela que a maioria das pessoas já fez”. Anônimo.

A idade média

Como virou moda jogar tudo no mesmo balaio de “IA”, talvez valha explicar que os algoritmos também são inteligência artificial.

Os feeds ranqueiam o que já existe; o ChatGPT gera o que ainda não existe. Um escolhe entre milhões de vídeos qual te mostrar primeiro, otimizando pela probabilidade de você assistir até o fim. O outro produz uma resposta nova, palavra por palavra, otimizando para parecer útil.

São incentivos diferentes, mas o destino é o mesmo. O feed te serve o que a maioria já escolheu; a IA generativa te serve o que a maioria teria escolhido. Por caminhos opostos, chegam à mesma mesmice.

O que as recomendações algorítmicas fazem é turbinar os incentivos para criadores de conteúdo se adaptarem ao estético e cultural médio aceitável. Viralize. Engaje. Agrade ao maior número possível de pessoas. Seja popular.

A conta @insta\_repeat documentou por um tempo a mesmice do Instagram.
A conta @insta_repeat documentou por um tempo a mesmice do Instagram.

Como consequência, lidamos com uma pasteurização estética do mundo. Cafeterias boutique — embora não façam parte de uma rede nem tenham um único dono corporativo — conseguem imitar o mesmo estilo: mesas de madeira rústica, luz natural abundante e máquinas expostas. O We Coffee em São Paulo parece o Blue Bottle em Nova York, que parece o Philz em São Francisco…

Você consegue um café latte com arte na espuma em qualquer um deles. Eles são todos iguais.
Você consegue um café latte com arte na espuma em qualquer um deles. Eles são todos iguais.

Em contrapartida, a inteligência artificial (ChatGPT, etc.) produzirá essa média automaticamente desde o início.

A brasileira mais estereotipada, de acordo com o Midjourney.

Ao pedir uma “brasileira” ao Midjourney, o modelo entrega a mulher acima: morena, sorridente, sensualizada, segurando a bola de futebol que todos nós recebemos após cortar o cordão umbilical. Não é uma brasileira, é a média estatística do que o mundo acha que é uma brasileira, destilada em pixels.

Décadas antes do Midjourney existir, os artistas russos Vitaly Komar e Alexander Melamid decidiram contratar uma empresa de pesquisa de mercado para entender o que as pessoas gostariam de ver numa pintura.

Após entrevistar 11.000 pessoas de 11 nacionalidades, descobriram que, quase unanimemente, todos queriam uma paisagem com animais em primeiro plano e tons predominantemente azuis.

Komar and Melamid, People’s Choice. A história completa do experimento foi retratada no no livro Playing to the Gallery
Komar & Melamid, People’s Choice. A história completa do experimento foi retratada no livro Playing to the Gallery.

Em 1994 eles fizeram “na mão” o que o Midjourney faz hoje em segundos. E é exatamente este o problema.

Há uma palavra pouco usada que cabe muito bem aqui: kitsch[1][1].

Palavra que originalmente designava o objeto de gosto duvidoso e apelo sentimental fácil. Na crítica de arte contemporânea, virou a estética que troca substância por conforto visual. Puro suco de Romero Britto.

Imagens geradas com IA são agradáveis aos olhos, tecnicamente impecáveis e (por vezes) provocativas, mas não têm nada a oferecer ao seu público além de conforto visual; ou seja, é kitsch.

Até aqui falei de estética, coisas que dá para olhar de longe e julgar com algum desdém. Mas o kitsch da IA não fica confinado ao visual. Ele também infecta a linguagem, na forma como escrevemos uns para os outros.

E descobri isso da pior forma: usando.

Quando eu virei o kitsch

No meu último emprego, meu então chefe — quem tinha me contratado após cinco rodadas extenuantes de entrevistas — saiu da empresa um trimestre após minha contratação. Nem tive tempo de terminar os treinamentos de compliance e já estava sendo absorvido por outro time, este com uma chefe estadunidense que tinha trabalhado em empresas de consultoria a vida inteira.

Já eu que trabalhei em tech minha carreira inteira, sempre fui encorajado a questionar educadamente decisões da liderança (para entender o contexto, não desafiar) e esperava-se de mim que encontrasse projetos para trabalhar (não que fossem alocados pelo gestor). Como foi minha primeira experiência com um gestor vindo de consultoria MBB [2], demorei a perceber que as expectativas culturais eram bem diferentes.

Minhas perguntas eram interpretadas como um desafio à autoridade dela (e não curiosidade genuína); se agisse com autonomia, era insubordinado (porque deveria esperar ela abençoar minhas decisões); e uma necessidade incessante de criar documentos para tudo e qualquer coisa que nunca consegui compreender.

Quando me dei conta, estava revisando incansavelmente mensagens por medo de falar algo errado. A distância física também não ajudava na comunicação.

Enquanto reclamava dessa dinâmica para um ombro amigo durante o almoço, minha colega me encorajou a testar IA para melhorar a comunicação.

Escrever está entre as atividades mais prazerosas na minha vida. Eu raciocino escrevendo. Processo traumas escrevendo. Só consigo expressar emoções através da escrita. Um dos momentos mais tristes da minha vida foi quando perdi o movimento da mão após um acidente e não consegui escrever por um tempo.

Então acho que você consegue entender porque nunca tinha me disposto a pedir ajuda para IA redigir minhas mensagens.

Mas também estava claro que não possuia o dialeto específico de “corporate speak” para lidar com essa situação.

Não custaria nada pedir ajuda, pensei.

Munido com o Claude, comecei a “suavizar” minhas palavras antes de enviar mensagens para ela.

Enquanto eu pensava em escrever:”Comecei a estruturar o doc do projeto Z ontem. Te mando depois o rascunho para você dar uma olhada."

O Claude amaciava para: "Tive uma ideia inicial para a estrutura do doc do projeto Z e cheguei a esboçar algumas seções para não esquecer. Antes de avançar, queria validar a direção com você — posso te mandar o rascunho para você dizer se faz sentido seguir por aí?

Exceto pelo uso excessivo de travessões — que eu realmente usava antes da IA aparecer — eu não me expresso assim ao escrever. Mas pouco importava, as mensagens reescritas estavam surtindo efeito no meu relacionamento corporativo.

O Claude não mudava o conteúdo da mensagem, mas sim a postura. Substituía afirmações por perguntas, removia justificativas que soavam defensivas e colocava a chefe na posição de quem decide (mesmo quando a decisão prática já estava tomada).

Não é que a IA me fez médio. O trabalho já fazia isso muito antes do Claude existir. Reuniões que poderiam ser e-mails. E-mails que poderiam ser uma mensagem. Frases que precisam de três parágrafos de amaciante para não soarem ameaçadoras...

Coisas que davam um trabalhão: reescrever, suavizar, pedir para alguém conferir… Agora é só um prompt.

Talvez esse seja o futuro que estamos construindo sem perceber. Não um mundo onde IA substitui humanos, mas um mundo onde humanos terceirizam para a IA exatamente as partes de si que já tinham desistido de defender. O e-mail de aniversário do colega que você mal conhece. A foto de perfil do LinkedIn. A legenda do Instagram.

A arte a gente ainda briga para proteger. O resto, entregamos de bandeja.

E olha, eu entrego junto.


[1]: Kitsch (subst.): originalmente, objeto de gosto duvidoso e apelo sentimental fácil; na crítica contemporânea, estética que troca substância por conforto visual; para Milan Kundera em A Insustentável Leveza do Ser, "a negação absoluta da merda"

[2]: MBB é a sigla para McKinsey, BCG, Bain, as três maiores firmas de consultoria, todas com uma cultura de trabalho similar.